Netflix abre a carteira: o peso do cinema nacional no Oscar e o resgate inusitado de ‘Shrill’
12 Maio 2026A gigante do streaming definitivamente não está para brincadeira quando o assunto é dominar a nossa atenção e segurar assinantes. Durante a inauguração da imponente sede de três andares da empresa no bairro de Pinheiros, em São Paulo, o co-CEO global Greg Peters soltou uma informação que ilustra bem o atual momento da plataforma no país: a Netflix meteu a mão no bolso para bancar “O Agente Secreto”, o aclamado e superpremiado novo longa de Kleber Mendonça Filho. O investimento rolou no modelo de pré-licenciamento, o que significa que a grana entrou antes mesmo de as câmeras começarem a rodar. É um baita voto de confiança. Essa estratégia dá um respiro essencial para os produtores criarem com liberdade, enquanto garante uma exclusividade de peso para o catálogo do serviço, coroando a comemoração de 15 anos de atuação da empresa no Brasil, que hoje conta com cerca de 300 funcionários em sua base paulistana.
O impacto dessa jogada já é palpável. Ambientado no Recife de 1977, o filme acompanha o professor Marcelo, vivido por Wagner Moura, em sua fuga desesperada de agentes da ditadura militar. O longa virou um verdadeiro fenômeno cultural. Desde que chegou às salas de cinema no dia 6 de novembro de 2025, arrastou mais de 1,7 milhão de pessoas para as sessões e fez a limpa nos festivais internacionais. Faturou Melhor Direção e Melhor Ator em Cannes, e cravou as estatuetas de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator de Drama no Globo de Ouro de 2026. Agora, “O Agente Secreto” respira os ares do Oscar 2026 ostentando quatro indicações fortíssimas: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Elenco e, claro, Melhor Ator para Moura. O elenco afiado ainda traz Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone e o lendário alemão Udo Kier, que infelizmente nos deixou no dia 23 de novembro de 2025, poucas semanas após a estreia. Como a janela de exibição nas telonas ainda está rendendo, a data exata para o filme pipocar na tela da sua TV ainda não foi cravada, mas a exclusividade já é certa.
Mas se por um lado a tática é fomentar e abocanhar o cinema de prestígio local, a engrenagem de expansão do catálogo também envolve pescar ouro nos quintais vizinhos. Em um movimento que vem se tornando uma tendência curiosa na guerra dos streamings, a Netflix vai engrossar sua biblioteca em junho com mais de uma dezena de títulos, misturando originais e licenciamentos de concorrentes. O grande destaque dessa leva aterriza logo na segunda-feira, 8 de junho: “Shrill”, uma comédia original do Hulu que foi cancelada lá fora, mas que agora ganha uma nova casa com todas as suas três temporadas, exibidas originalmente entre 2019 e 2021.
Criada por Aidy Bryant, Alexandra Rushfield e Lindy West — e baseada no livro “Shrill: Notes from a Loud Woman”, que a própria West lançou em 2016 —, a série é um achado. Bryant vive Annie, uma jornalista da publicação The Thorn que decide mudar a forma como vive a sua vida sem, no entanto, ceder à pressão opressora de mudar o próprio corpo. A produção entrega uma narrativa rara na TV. A jornalista Rae Alexander, da KQED, resumiu perfeitamente o impacto da série na época de seu cancelamento, descrevendo o fim prematuro como uma perda irreparável por ser uma das poucas produções a mostrar mulheres gordas e legais vivendo com graça e amor-próprio.
Essa recepção calorosa se reflete nos números. O show sustenta 88% de aprovação geral no Rotten Tomatoes, sendo 93% na primeira temporada e 83% na segunda, além de um sólido 7.4 no IMDB e 93% no Flicks. O elenco de apoio segura muito bem a onda, com Lolly Adefope brilhando como Fran, a melhor amiga de Annie, e John Cameron Mitchell encarnando o editor-chefe intragável Gabe Parrish. A trupe ainda conta com Luka Jones, Patti Harrison, Ian Owens, além de Daniel Stern e Julia Sweeney vivendo os pais da protagonista.
Quando a série foi cortada após 22 episódios, Aidy Bryant desabafou sobre como o universo da personagem se misturava com sua própria vivência. Ela comentou que aquelas ideias sobre odiar o próprio corpo, ou a tentativa de parar de odiá-lo, fazem parte da experiência de quase qualquer pessoa, e confessou que não estava pronta para se despedir do projeto. Agora, ao juntar as peças, fica nítido o jogo de xadrez da Netflix. A empresa tenta blindar seu catálogo oferecendo os dois extremos do espectro: o peso incontestável de uma superprodução nacional que dialoga com o Oscar e o resgate afetivo de comédias injustiçadas que mereciam um palco maior. É uma teia de conteúdo pensada minuciosamente para reter o público, independentemente do que ele esteja procurando numa noite de terça-feira.
